Fobia de Filme
Publicado por aplauzosteste em 06/16/2009
Fato: não há dúvidas que o documentário é o que há de melhor no atual cinema brasileiro. Três dos grandes filmes da primeira década do terceiro milênio são do gênero – Serras da Desordem, Jogo de Cena e Santiago. Obras fortes que quebram convenções e diluem a embaraçada fronteira entre ficção e documentário, real e falso. Por certo, seus autores têm consciência, e expõem para o público, que a pretensa idéia dos documentários de captar a realidade tal qual ela é, é falsa.
Filmefobia poderia ser mais uma obra a figurar no panteão das citadas no parágrafo acima. E o filme não sai desta pretensão.
De clara inspiração em Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, o diretor Kiko Goifman convidou pessoas com diversas fobias (desde as mais comuns – medo de altura e sangue – até as mais desconhecidas – medo de anão, borboletas ou botões) para entrarem em confronto com seus temores. No meio, embaralhou atores que apenas representariam, confundindo o espectador quanto àquilo que se passa na tela é verdadeiro ou falso.
Deste mote surgem várias indagações: o que leva uma pessoa a se expor num filme confrontando seus medos – exibicionismo? Vontade de superação? Masoquismo? E um ator pode realmente expressar um sentimento falso? O medo é um sentimento que se manifesta de maneira externa (respiração ofegante, gritos, gestos bruscos) ou interna (o inconsciente amedrontador, a analogia do tigre de papel de Lacan)? E a principal de todas, o que levou os realizadores a fazerem tal filme?
Entra em cena, para tentar responder tal pergunta, o crítico e teórico cinematográfico Jean Claude Bernadet, que profere a frase resumo do filme “A única imagem real é a de um fóbico diante de sua fobia”. E fica claro qual era a pretensão da obra. Longe de ser uma tentativa de análise patológica ou sociológica, busca de causa ou efeito, tentativas que seriam truncadas pela própria estrutura do filme, pois como confiar na análise de um profissional psicológico, onde não é claro quando se estar atuando ou não, o filme se presta unicamente a ser uma ilustração estética do medo no cinema. Estética e estéril. Pois, ao espectador o que resta é uma inconfortável – e o desconforto é o único sentimento despertado pelo que se vê na tela – sensação de voyeurismo, que por final, nos leva até a confrontar porque estamos ali na sala de cinema onde nem o sentimento de sadismo nos foi permitido (o sádico pelo menos sente prazer com o sofrimento que proporciona e vê no outro). É como se o filme apenas duplicasse situações desagradáveis as quais somos expostos no dia-a-dia, brigas matrimoniais em locais públicos, pessoas com síndromes e acidentes diversos, na tela, protelando o sentimento de passividade diante o mundo.
Nessa busca de uma representação plástica do medo no cinema, o filme somente alcança o objetivo quando expõe a única grande fobia que pode assolar um amante desta arte. Jean Claude Bernadet construiu sua vida sobre o viés do cinema, portador do vírus HIV há mais de 20 anos, expõe o seu medo de ficar cego através das decorrências da doença num discurso já no final do filme. E este é o único momento de comoção, pois perder a visão para a arte visual é a mais devastadora das fobias.
Serviço: O filme ficou uma semana em cartaz no Cine Academia no mês de maio e retorna agora a partir do dia 26 de junho a sala do Cine Brasília.





