Samanta Peçanha
O cantor e compositor Alysson Takaki fala de suas experiências musicais e de seus dez anos de carreira. Ele é cria de Brasília e tem uma vasta experiência musical principalmente no canto, área em que se especializou. Compor e cantar o que gosta são as suas paixões. Relacionado a isso ele já lançou dois CD’s, cantou em bailes e bares da cidade e já tem um novo projeto para 2009. Gosta muito de trabalhar com música, mas ressalta que o caminho é árduo e cheio de concessões. Nesta entrevista, concedida na Escola de Música de Brasília, Alysson fala de sua carreira e como se sustenta com a música.
Samanta -O nome Alysson Takaki é “original de fábrica”, ou é um pseudônimo que você usa para suas atividades artísticas?

Aplauzos JCD - Foto: Cristiano Mariz
Alysson Takaki – É original. Eu tenho outros dois nomes: Shozu e Resende. Algumas pessoas achavam que o Takakai era legal. Outras falavam que era estranho. Outras, que eu não tinha cara de japonês para usar esse nome. Como eu já tinha adotado e as pessoas me conheciam assim, resolvi não mudar.
Samanta – Por que você desistiu de seguir a carreira de publicitário para virar músico?
Alysson Takaki – Foi loucura. Sempre gostei de música mas não sabia nada. Também gostava de escrever e criar. Quando entrei na faculdade com 17 anos achava que iria trabalhar só com criação, mas não é bem assim. Decidi então seguir a música, graças a um amigo inglês, e é o que eu gosto de fazer.
Samanta – Esse seu lado artístico foi estimulado por alguém da sua família? Se sim por quem e como tudo isso começou?
Alysson Takaki – Não diretamente. O meu avô era pintor e me disseram que ele cantava, mas não muito bem. A minha avó é que cantava. O meu pai não abria a boca nem para cantar “Parabéns para Você”, e a minha mãe cantarolava. Acredito que a minha influência foi do rádio e dos discos que escutávamos em casa, inclusive canções japonesas. Comecei a cantar em aulas de violão. Formamos uma banda no inglês, participamos de um concurso e ganhamos o terceiro lugar. Depois entrei em um coral com um professor erudito e estranhei bastante. Cheguei a pensar: se cantar é isso eu não quero mais não. Entrei em outro coral, Oito Encantos, com o professor Marconi Araújo e a partir daí tive mais contato com a teoria musical e aprendi o que é música de verdade.
Samanta – Quais são as maiores realizações de se trabalhar como músico e as principais dificuldades?
Alysson Takaki – A maior realização é você poder cantar o que gosta. Quando eu canto entro no meu mundo. O que às vezes frustra é ter que fazer concessões e outras coisas que desgosto para conseguir realizar o que dá prazer. Não dá para fazer só o que gosta.
Samanta – Pude perceber que você tem tanto uma formação lírica quanto popular. Por que se especializou nessas duas áreas e qual a colaboração de uma na outra?
Alysson Takaki - Comecei a fazer erudito porque já estava encaminhado nessa área e queria cantar. Entretanto, sempre cantei popular por isso os dois andaram sempre juntos. O erudito não me dava prazer. Ele ajuda muito no controle da técnica, mas é muito exaustivo. Resolvi então me dedicar ao popular que me ajuda com a interpretação diferenciada no erudito. Acho uma bobagem quem acredita que um é melhor do que outro. Os dois devem andar juntos.
Samanta – Com o que é mais gostoso de trabalhar, com o glamour da ópera ou a dinamicidade dos musicais?
Alysson Takaki – O musical é mais palatável enquanto a ópera é engessada. Eu prefiro o musical. Claro que depois iria à uma ópera, mas em primeiro lugar o musical, me identifico mais.
Samanta – Qual o musical que você ainda não teve a oportunidade de fazer mas que deseja muito e o por quê?
Alysson Takaki – Conheço poucos musicais inteiros, mas os musicais que eu gosto das histórias e músicas são o “Cats” e “Os Miseráveis”.
Samanta – Você já participou tanto de festivais de música japonesa quanto de Música Popular Brasileira. Qual a principal diferença entre os dois além da língua?
Alysson Takaki – Os festivais de música japonesa são mais para intérpretes. Você tem que cantar o mais próximo do original, por isso são bem mais concorridos. Tem cantores que ensaiam a música por um ano. O que esse tipo de festival me proporcionou foi o palco, além de poder conhecer outros lugares do mundo. Já o festival de MPB você tem que compor a sua música e interpretá-la . São abordagens diferentes.
Samanta – “Atualmente” foi o primeiro CD de sua carreira. O que ele significa para você e no que se inspirou para fazê-lo?
Alysson Takaki – Eu fiz esse CD com a banda D Fatto. O guitarrista era meu amigo de UNB e parceiro de composição. “Atualmente” tem mais visão política. Na época, para mim, cantar com uma banda era mais fácil do que tentar carreira solo. Além disso, tínhamos toda uma visão romântica do rock: gravar um disco e fazer sucesso.
Samanta – “No seu mundo” é o seu mais recente trabalho e pude perceber que todas as músicas falam de amor. Você se considera um romântico incurável?
Alysson Takaki – Sim. Sempre gostei de músicas românticas e é o estilo que mais ouço. Não adianta você lutar contra as coisas que gosta.
Samanta – Ao compor uma música quais são as suas expectativas?
Alysson Takaki – Não tenho tantas expectativas. Começo a fazer a música inspirado em uma idéia. Depois de ter começado eu vejo qual a cara dela e coloco uma letra.
Samanta – Qual foi o seu critério de seleção para as músicas do CD “No seu mundo”?
Alysson Takaki – Quis pegar canções antigas. Além de algumas que eu tenho predileção fiz uma pesquisa de opinião para ver quais que os meus conhecidos gostavam mais. Foi um apanhado de uma trajetória de dez anos.
Samanta – A maioria dos cantores já passaram pela escola dos bares e bailes. O que você pode tirar de experiências dessas apresentações e quais as músicas que não podem faltar?
Alysson Takaki – “New York, New York”. Eu aprendi muito também em relação ao palco. Nos bailes a responsabilidade maior é do cantor para animar a festa e “sacar” o repertório. Você precisa ter jogo de cintura e ser eclético. Outras músicas que são muito pedidas: “Foot Loose” e “Twist and Shout”.
Samanta – Você tem histórias interessantes para contar sobre essas apresentações?
Alysson Takaki – Sempre tem. Uma vez uma senhora pediu três blocos da festa só de forró. No final do terceiro bloco ela passou fazendo cara de reprovação dando a entender que a nossa banda era horrível. Em outra festa me deu uma dor de barriga muito forte no meio de um dueto. Tive que sair correndo para o banheiro e deixar a minha colega cantando sozinha. Essas coisas acontecem. A única coisa a fazer é se divertir.
Samanta – Você foi professor de cantores que ficaram conhecidos por participarem de concursos importantes. Qual a maior realização que você tem ao ver seus alunos conquistando uma posição e se isto te faz esquecer a dificuldade de ser professor no Brasil, principalmente de canto?
Alysson Takaki – Eu fico muito satisfeito. É a certeza de que você acrescentou alguma coisa. Todos são talentosos, o professor está ali mais para orientar. O reconhecimento é gradativo tanto do aluno quanto do professor. Muitos professores só porque sabem cantar querem dar aula, mas o conhecimento da técnica é importantíssimo. Sempre dei aulas individuais e agora vejo que preciso ajudar mais pessoas. Quero democratizar o acesso através da internet. O pouco que você ensina hoje, ajuda muito amanhã.
Samanta – Ainda falando sobre ensino, você participou do 29º Curso Internacional de Verão da EMB como professor. Como foi dar aula ao lado da Chris Delano e que experiências você carrega desse evento que reúne músicos de todo o Brasil e mundo?
Alysson Takaki – Foi uma grande oportunidade, além do que a Cris é maravilhosa. Tudo aconteceu muito rápido porque recebi o convite uma semana antes do início do curso. Apesar disso aproveitei ao máximo, pois todos que fizeram o curso são muito talentosos. Na verdade acredito que todos que fazem o curso buscam mais a socialização para aprender coisas novas. Ensinei tudo o que sabia como operário da música que precisa se manter. O curso foi lindo.
Samanta – Quais são os seus planos para o ano de 2009?
Alysson Takaki – Pretendo gravar outro disco, mas não estou pensando no formato CD. Quero disponibilizar as minhas músicas na internet. Esse projeto vou desenvolver junto com o Ricardo Nakamura (Boy) e vai ser só piano e voz. Vou concluir a UNB. Farei vídeos-aula e disponibilizarei também na internet, para facilitar o acesso dos futuros alunos. Os métodos ensinados hoje não atendem a todos os tipos de voz. Fazer algo gradativo com o acompanhamento de um professor é fundamental.
Veja o vídeo da música “Mil Palavras” composta e interpretada por Alysson Takaki